Apolo e Dionísio: por um novo espetáculo.

Sociedade do Espetáculo foi o nome dado pelo francês G. Débord as novas formas de sociabilidade surgidas a partir dos anos 60. Muitos outros autores surgiram desde então buscando compreender e nomear as mudanças ocorridas na contemporaneidade.

Na dita sociedade do espetáculo o ideal do ser, ou construir passou a dar lugar ao ideal do ter, ou parecer. Nessa perspectiva o ritmo ficou mais frenético, uma excitação permanente tomou conta da vida, a busca por sensações tornou-se um imperativo e até o lazer passou a ser compromisso e ter que ser aproveitado ao máximo. Uma sociedade hedonista, individualizada, onde o excesso passou a ser a regra e o prazer seu único objetivo.


É preciso coragem para se levantar e falar; e também é preciso coragem para se sentar e escutar.” Winston Churchill


Dionísio, deus grego, é seu maior representante. Seu culto era regado a vinho e orgias, é a emoção pura, densa, dramática, força abissal, das grandes profundidades. As forças descomunais da natureza, nossa parte animal, descontrolada, que pode levar ao abismo mas também a criação. Força irrefreável, do excesso, do êxtase e da vertigem. Dionísio destrói e constrói. É o ciclo da vida.


Mas a busca pelo prazer sempre esteve presente na subjetividade humana e não há nada de errado quanto a isso, o que temos de novo, além da pressa, da falta de tempo para a espera, da necessidade de tudo ter que ser imediato? Falta um contraponto, um equilíbrio.


No Olimpo havia muitos deuses. Apolo, deus da luz, da eternidade, da juventude, da harmonia e da ordem é o contraponto de Dionísio. Se um é disforme, e traz o caos, ou outro reina nos sonhos, nos estados oníricos, nas formas, na perfeição das medidas e das proporções. É a face mais resplandecente da realidade, caráter pacificador e ético da existência. Tudo nele se faz divino, até mesmo as dificuldades. Apolo é coerência. A individualidade em equilíbrio. É a vida em sua constância, ainda que trágica.



Apolo e Dionísio enquanto forças se opõem e se equilibram. Se a vida contemporânea está tão permeada pelo sentido do fugidio, do efêmero, do fragmentário e do contingente, do espetáculo, talvez seja pela ausência do equilíbrio entre Dionísio e Apolo.


Perante essas novas formas de estar no mundo poderíamos nos perguntar, ainda há lugar para nos comunicarmos, interagimos? Acredito que sim.


Embora incitados a apenas um aspecto divino em nós - o caos, o intenso, o criativo - sempre haverá lugar e necessidade do belo, do harmônico, do estético, do ético em nossas vidas.


O Outro ainda que adormecido pulsa em cada um de nós, basta que nos propúnhamos a escutar. E assim construirmos um novo espetáculo.



Artigo originalmente publicado do Mural da Sofis* (Edição 29/Ano 2018).

*Informativo de Comunicação Interna e Institucional da empresa Sofis Tecnologia.


Para saber mais:


ALMEIDA, Ricardo. O equilíbrio dos extremos: Apolo, Dionísio e a filosofia de Nietzsche. São Paulo, 14/05/2015. Disponível em: https://genedocaos.com/2015/05/14/o-equilibrio-dos-extremos-apolo-dionisio-e-a-filosofia-de-nietzsche/comment-page-1/ Acesso em: 15/05/2018.


TRINDADE, Rafael. Nietzsche e Dionísio. Rio de Janeiro, 23/08/2017. Disponível em: https://razaoinadequada.com/2017/08/23/nietzsche-e-dionisio/ Acesso em: 14/05/2018.


TRINDADE, Rafael. Nietzsche e Dionísio. Rio de Janeiro, 09/08/2017. Disponível em: https://razaoinadequada.com/2017/08/09/nietzsche-e-apolo/ Acesso em: 14/05/2018.


EDLER, Sandra. Tempos Compulsivos: a busca desenfreada pelo prazer. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2017.

https://amzn.to/3dtkOeL


Para citar esse artigo:


MENDES, Marisa F.. Apolo e Dionísio: por um novo espetáculo; Rio de Janeiro, 14 de maio 2018. Disponível em: Acesso em:



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