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Dia das mulheres: dia de posicionamento


Hoje é dia das mulheres. Com tantas mulheres que existem no mundo, são muitas as possibilidades para se ser mulher. Mas o que é ser mulher no Brasil de hoje?


Ser mulher, mãe, psicóloga, amiga, empresária, já me rendeu tantos tipos de honrarias nesta data. Eu sempre me pergunto: no que as pessoas pensam quando prestam essas homenagens?


A cada ano as homenagens mudam. Mudam também as formas com as recebo. Já fiquei feliz em ganhar flor. Já me ofendi em ver ressaltada a minha força! Logo eu, tão frágil.


Mas os anos passam. E esse ano pediram para eu me posicionar. Um posicionamento, disse o dicionário, é “um ato, ou efeito de se posicionar; uma opinião”. Gostaria de não precisar me posicionar sobre esse tema, mas, sendo mulher, isso se torna quase inevitável.


Em tempos de tantas posições, tantos lados, tantas opiniões, creio que o meu será apenas mais um. Mas, nesse caso, a posição de quem está no meio, no meio da condição de ser mulher, e no meu caso, já há alguns anos.


Afinal, em todos esses anos em que sou mulher, sempre tive que me posicionar mesmo. A vida tem seus desafios, e da posição de mulher eles têm suas particularidades.



Alguns dados podem nos ajudar nessa tarefa. Vamos lá!



Somos 51,8% da população brasileira. Em 2018, o IPEA apontou que 45% dos domicílios brasileiros eram comandados por mulheres. Em 2020, fomos a maioria dos eleitores do país. A segunda edição do estudo “Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, do IBGE, lançada agora no início de 2021, trouxe informações ainda mais fundamentais para a análise das condições de vida das mulheres por aqui.


Para começar, o estudo mostra a maior dificuldade de inserção das mulheres na força de trabalho. Somos 54,5% desta força enquanto os homens representam 73,7%, apesar de sermos a maioria da população com nível superior completo no país - 19,4% (15,1% são homens).


Entre pessoas de 25 a 49 anos que têm uma ocupação, mulheres que têm crianças menores de 3 anos em casa participam menos do mercado de trabalho é menos ainda do que aquelas que não têm essas crianças (54,7% e 67,2%).


Somos 46,8% dos docentes de ensino superior no Brasil. E dedicamos 21,4 horas semanais de nossas vidas aos cuidados de pessoas e/ou afazeres domésticos, quase o dobro de tempo que os homens (11,0 horas).



Ainda não temos representatividade na vida pública.



O percentual de parlamentares mulheres em 2020, no Brasil, foi de apenas 14,8%. O menor índice de participação feminina entre países da América do Sul. Quando o assunto é a participação de mulheres em cargos ministeriais esse percentual é ainda menor. De acordo com a pesquisa, em 25 de setembro de 2020, dos 22 ministros de Estado no Brasil, apenas dois eram mulheres, ou seja, 7,1%.


E esses dados não são muito diferentes quando se trata de avaliarmos a participação das mulheres nos cargos gerenciais, posições de liderança no setor público ou no setor privado – como em cargos de diretoria ou gerenciais. No Brasil, em 2019, apenas 37,4% dos cargos gerenciais eram ocupados por mulheres.


Se o assunto são direitos humanos, os dados, para nós mulheres, são ainda mais preocupantes. Em pleno século XXI são ainda necessários indicadores de realidades como casamento forçado, precoce, ou infantil, mutilação de genitais (felizmente não aqui no Brasil), entre outras formas de violência contra mulheres e meninas, para tentarmos impedir a continuidade dessas práticas através de políticas e ações.


No Brasil, em 2019, foram realizados 21.769 casamentos civis com cônjuges de até 17 anos do sexo feminino, 2,1% do total de casamentos em 2019 (2.203 casamentos envolviam cônjuges de até 17 anos do sexo masculino, 0,2% do total). Em 2011, esse número era de 48 637, 4,7% do total de casamentos do ano. Mas os dados não falam sobre casamentos não registrados.


Ainda pensando sobre mulheres jovens, a taxa de fecundidade para mulheres de 15 a 19 anos em 2019 foi de 59,0 nascimentos a cada 1.000 dessas mulheres. Em 2011, essa taxa era ainda maior, 64,0. O índice é superior a taxa mundial de 44 adolescentes grávidas para cada grupo de mil mulheres. E este número se amplia de acordo com a região pesquisada. Na Região Norte, a projeção sobe para 84,5 nascimentos a cada 1.000 mulheres de 15 a 19 anos de idade. No Amazonas, os pesquisadores encontraram a maior taxa de fecundidade adolescente (93,2), a menor ficou no Distrito Federal (42,7). No mundo a menor taxa, em 2018, foi apresentada pela União Europeia (8,9) e a maior pela África Subsaariana (101,2).


Indicadores sobre violência contra a mulher no Brasil, de acordo com o estudo, esbarra entre outras dificuldades, na subnotificação de casos de violência sexual e na ausência de pesquisas específicas sobre violência doméstica. Contudo, em 2018, os dados revelaram que 30,4% dos homicídios de mulheres ocorreram no domicílio, para os homens, a proporção foi de 11,2%.



Mas hoje é dia de se posicionar! Hoje é dia de comemorar!



Políticas públicas de longo prazo, assim como ações da sociedade civil, sem dúvida, são essenciais para transformar essas condições. Neste texto nem chegamos a discutir as variações acentuadas pela análise de diferenças entre as próprias mulheres. E sabemos que elas existem. Conscientizar, compartilhar informações, questionar, se posicionar, tudo pode ajudar. Mas há de se avançar com cuidado, sem se perder as conquistas já adquiridas. De longe viemos. Nesse caminho, boas parcerias são fundamentais, lembrando sempre que também a saúde, física e mental, depende de nossas condições sociais. Somos fruto do mundo em que vivemos.


Mas comemorar o que, poderiam vocês me perguntar depois de todas dessas constatações. Primeiro, comemorar por estarmos vivas. Depois, comemorarmos por estarmos avançando em nossos direitos, em nossas falas e em nossas ações. Quem sabe chega o dia em que não precisaremos mais nos posicionar e simplesmente sermos. Por fim, ser mulher, para mim, é reconhecer tudo isso e se posicionar no mundo a partir dos fatos que nos constituem.


E você, como você se posiciona?



Para citar esse artigo:

MENDES, Marisa F.. Dia das mulheres: dia de posicionamento. Rio de Janeiro, 08/03/2021. Disponível em: https://www.marisa-mendes.com/single-post/dia-das-mulheres. Acesso em:



Para saber mais:

Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil / IBGE, Coordenação de População e Indicadores Sociais -2o. edição. Disponível em: <Informativo_Estatisticas_de_Gênero_[3].indd (ibge.gov.br)> Acesso em: 08/03/2021.





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Marisa Mendes | Psicologia | CRP 05-16481

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