Ética, estética e a vida como obra de arte

Não podemos falar de ética sem passarmos pelo mundo da filosofia. E para muitos esse é um conhecimento que poderia ser abolido de muitos lugares, até das escolas, esquecendo ser esse a origem de todas as ciências, inclusive as exatas. Mas vamos deixar essa discussão para outros espaços e vamos ao que nos interessa nesse texto.

“A ética é a estética de dentro."

Pierre Reverdy

Para entendermos a ética como vamos nos referir aqui vamos precisar viajar no tempo. Vamos, então, visitar a filosofia praticada na Grécia Antiga, no período compreendido entre os anos IV a.C a I d.C., o chamado período helenístico, onde o homem passa a ser pensado como cidadão do mundo, e a filosofia uma espécie de terapia da alma, ou seja, a filosofia influenciada pelo espírito socrático.

 

Sócrates (469-399 a.C), que dizia nada saber, talvez por isso, nada deixou por escrito. Suas ideias foram apresentadas por seus discípulos.  O mais famoso deles Platão, aquele da caverna, escreveu uma obra intitulada “O Banquete” onde entre outras coisas, Sócrates nos é apresentado, assim como seus ensinamentos.

 

 

 

Sócrates e aqueles que o seguiram se caracterizavam por acreditar em uma filosofia não apenas do discurso, como seus antecessores, os sofistas, mas pelo exercício de sua prática. Uma filosofia definida como amor pela sabedoria, ainda que essa fosse compreendida como algo inalcançável.

 

Vale lembrar que Sócrates acreditava que o homem possui o desejo inato de realizar o bem, logo ao filósofo caberia auxiliar esse homem - e no caso da Grécia Antiga, só aos homens mesmos, pois as mulheres estavam a cuidar de outras coisas - a atingir a pureza da intenção moral através do contínuo exame de si.

 

Dessa forma, através de interrogações e do diálogo, o que Sócrates quer é demonstrar que nada sabemos, para, a partir daí despertar no outro um permanente estado de alerta a respeito de suas proposições, a necessidade de um cuidado permanente de si, uma revolução interior, onde o saber passa a ser sempre uma descoberta pessoal, nem sempre possível, mas sempre questionável.

 

Nesse contexto surgem as chamadas práticas de cuidado de si ou técnicas de si difundidas por diferentes escolas greco-romanas de então. Para Ventura (2008) as técnicas de si devem ser entendidas como práticas, através das quais o homem não apenas determinava para si mesmo as regras de sua conduta, como também buscava modificar-se para alcançar a sua singularidade e tinham como resultado uma reflexão sobre os modos de vida e sobre as escolhas de existência de cada um, configurando o que se passou a chamar de estética da existência.

 

As práticas de si e a estética[1] da existência ganham importância em nossa discussão ao considerarmos o sentido grego da palavra ética (êthos), ou seja, maneira de ser e a maneira de se conduzir.  São essas práticas que nos permitirão a nossa constituição como sujeitos esteticamente belos, no sentido socrático de ser, e por isso éticos.  

 

Mais perto de nós, um dos queridinhos da filosofia do século XX, Michael Foucault, nos faz pensar, ao nos dizer sobre esse tema: "a ética é, em primeira e última instância, um modo de relacionamento do indivíduo consigo mesmo. É o cuidado de si. A ética é criação e a partir da liberdade e o indivíduo é uma obra – obra de si mesmo, obra de arte”.  Para ele e para grande parte da filosofia, o problema ético consiste em responder a questão de como se pode praticar a liberdade.

 

A ética do cuidado de si concerne à maneira pela qual cada indivíduo constitui a si mesmo como sujeito de sua própria conduta, estando intimamente relacionada com os seus atos e suas ações para consigo e também para com os outros.

 

Pensar a vida como uma obra de arte traz a nós uma responsabilidade enorme. Se nosso modo de ser for pensado como um reflexo de nossa interioridade, não há como negar a importância das práticas de si para atingirmos os conselhos dos filósofos gregos e conhecermos a nós mesmos.

 

Dá muito mais trabalho pensar a vida de modo estético. Mas ao menos podemos nos orgulhar de construirmos uma obra de arte.

 

[1] Ramo da filosofia que estuda a natureza da beleza e os fundamentos da arte. Em: https://www.meusdicionarios.com.br/estetica

 

Como citar esse artigo: Mendes, Marisa F. Ética, estética e a vida como obra de arte. Rio de Janeiro, 28 jan 2017. Disponível em: https://www.marisa-mendes.com/single-post/etica-estetica-vida. Acesso em (...).

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